"Cristãos na teoria nem sempre são
discípulos na prática"



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O discípulo em relação ao mundo


Deus tem nos convocado para algo que, com frequência, cai em esquecimento: “Ergam os olhos e vejam.” (Mateus 6.26-28). O que temos visto? Dependendo de onde moramos, podemos dizer que só vemos poluição, trânsito congestionado, violência e injustiça. Olhar como resposta a um convite divino pode nos dar perspectivas mais sensíveis e se desdobrar em relações e posturas diferenciadas. Mesmo quando ao redor há destruição (prova de nosso descuido e consequência de nosso egoísmo), podemos melhor nos conscientizar sobre as mortes que o pecado gera. Podemos nos voltar a Deus humildemente, saboreando sua graça, a redenção em Jesus, e nos inspirar a criar com espontaneidade, com formosura e com a alegria pregar o Reino de Deus, Sua justiça e Seu amor por uma criação que não conhece o Seu Criador. Mas infelizmente vivemos seduzidos por uma cultura enferma, refém de um mundo já condenado. Hoje ao ler um artigo em uma revista fiquei pensativo. Pedro em sua 1 carta nos alerta para que lembremos de nossa condição em meio a este mundo (“Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo...” 1Pedro 2.11), parece que perdemos esse princípio cristão de que somos peregrinos nesse mundo, se prestarmos atenção, muitos não vivem como tal. Alguns (ou muitos) se sentem atraídos a fazer como os amigos íntimos de Jesus que queriam fazer no monte da transfiguração: construir tendas, fixar estacas e atear a verdadeira bandeira que traduzia o que havia em seus corações: “daqui eu não saio, daqui ninguém me tira”.
Muitos acham que vieram pra ficar. Se esquecem que estão de passagem. Vivem presos na corrida incansável pela compra da sensação de bem-estar e, no final, esse estilo de vida só serve para provar que eles, na verdade, não acreditam muito em uma pátria além, moradas celestiais (“...e habitarei na casa do Senhor por longos dias.” Salmo 23.6).
Na língua portuguesa, quando Pedro escreve “peregrinos” e “forasteiros”, podemos ter uma ideia confusa, pois essas palavras são pra nós sinônimas e de pouca ou nenhuma diferença. Mas no grego não é assim. Pedro usa palavras diferentes, sendo que com relação a “peregrinos” - παροίκους / paroikous, que se refere a alguém que é hospede, que está hospedado em uma casa por um curto período de tempo. Já a palavra “forasteiro” - παρεπιδήμους / parepidēmous, que significa alguém que é emigrante, refugiado, estranho, estrangeiro em um país.
Isso me faz lembrar que somos peregrinos na casa que habitamos, o nosso corpo corruptível. Esse, decididamente, não é o nosso corpo permanente. Por vezes nos esquecemos que essa casa (corpo) é passageira, que não foi feita para durar pra sempre. O corpo vai ficar doente, vai sofrer…  A degradação é automática e inevitável, assim como é automática a habitação do novo corpo, que é glorificado e, por isso, é eterno.
Também somos forasteiros nesse país. Não podemos ganhar os moldes do mundo e se conformar com suas aberrações (Romanos 12.1-2). Não somos dessa terra, mas sim, estamos de passagem! Com esta aplicação sobre ser forasteiro e ser peregrino podemos dizer que somos peregrinos tanto dentro desse corpo como também dentro do lugar onde habita o corpo. Sendo assim, com certeza, vamos começar a olhar as coisas numa outra perspectiva. Vamos olhar, com o olhar de alguém que discerne o tempo e modo das coisas.
Parece que nos tornamos mais técnicos que adoradores. Acumulamos informações, discutimos acadêmica ou teologicamente, mas talvez se Jesus chegasse hoje ao nosso meio seu comentário para nós não seria diferente daquele dirigido a mulher samaritana: “Vocês adoram o que não conhecem” (João 4.22). Em nosso dia-a-dia, vivemos como seres fragmentados, continuamos a pregar Jesus na cruz, sem desfrutarmos do significado de sua morte e ressurreição: “Uma vida nova, livre e abundante, cuja inteireza cativa outros.” Como diz Franky Schaeffer, em seu livro “Viciados em Mediocridade”: “Na maior parte do tempo os cristãos vivem na tensão entre suas atividades espirituais e o resto da sua vida. Entretanto, o cristianismo deveria ser uma experiência libertadora que abre nosso entendimento para apreciar mais de Deus. Somos aqueles que foram libertos para ver o mundo como realmente é desfrutando e nos divertindo com a diversidade e a beleza da criação”.
Não somos desse mundo, desse planeta, desse país… Dessa forma, não podemos nos parecer com ele, não podemos amar o mundo (“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele."  1 João 2.15).
Quero resgatar o significado da imagem do povo que é raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus. Quero me lembrar sempre que não é só o tempo que passa. Para onde tenho fixado meu olhar!
Sei que estamos no mundo, pois foi Jesus mesmo quem nos deixou aqui (“Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.” João 17.15). 
Então, saibamos, pois, ouvir sua voz, que é cheia de majestade, que faz dar cria às corças e desnuda os bosques (Salmo 29.4, 9). Que o Espírito de Deus nos ajude a parar, contemplar, adorar e proclamar as maravilhas do Criador e a pregar Jesus como Senhor de nossas vidas, pois n’Ele podemos viver um dia de cada vez, com reverencia e temor!