"Cristãos na teoria nem sempre são
discípulos na prática"



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vivendo na vontade de Deus

Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma.” (Atos 23.11).
Paulo estava preso em Jerusalém. Todas as coisas conspiravam contra ele, parecia que ele estava em um beco sem saída. Mas quando todas as circunstancias pareciam desfavoráveis a Paulo, Deus abre uma clareira no céu e declara a ele “CORAGEM”!
Vivemos na vontade de Deus quando sabemos que o evangelho é mais importante que a nossa liberdade. Paulo está preso, mas o evangelho está livre. A divulgação do evangelho é algo muito importante em nossas vidas. Paulo foca sua atenção não em si, mas na proclamação do evangelho. Todo esse parágrafo gira em torno não de Paulo, de suas cadeias, de seus críticos, mas do evangelho. O evangelho é o oxigênio que Paulo respira. Não importam as circunstâncias, desde que o evangelho seja anunciado. Não importa o que está acontecendo em nosso redor, o que importa é que Cristo seja engrandecido seja na sua vida seja na sua morte: (Filipenses 1.20: “segundo a minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte.”).
Diante deste desafio gostaria de destacar alguns pontos importantes acerca de fazermos a vontade de Deus em nosso dia a dia:
1.     A presença de Deus
Antes de enviar-nos aos campos, Deus se coloca em nosso lado. Amados deixa eu te dizer algo aqui: “Deus não nos manda fazer sua obra sozinhos, nem pelas nossas forças!” é o Senhor que nos fortalece.
O vaso é de barro, mas o conteúdo que tem no vaso é precioso.”
Precisamos desesperadamente da presença de Deus. Nossas vidas serão vazias, nossas reuniões sem vida, nossas músicas sem unção e nossas mensagens mortas se Deus não estiver presente. Muitas vezes, confundidos a onipresença de Deus com a presença manifesta de Deus. Deus está em toda parte, mas Deus não está em toda parte com a sua presença manifesta. Quando Deus está presente isso é notório, como quando Jacó acordou em Betel. Muitas vezes nós falamos para as pessoas que Deus está entre nós. Elas vêm e não vêm Deus. Elas então chegam à conclusão que fazemos propaganda enganosa. Dizemos que tem pão na casa do pão, mas só temos fornos frios, prateleiras vazias e receitas de pão. Quando Deus se agrada de nós, podemos dizer como Josué e Calebe: “Se o Senhor se agradar de nós, podemos.” 
A presença de Deus nos oferece proteção, direção e motivação. Podemos ver na vida de Paulo que em muitos momentos faltou a presença de seus amigos, mas jamais, nunca lhe faltou a assistência divina!
Podemos enfrentar solidão, abandono, perseguição, privações e até ingratidão de pessoas, mas o Senhor nos assiste em nossas fraquezas e nos renova as forças para cumprirmos a Sua vontade.
2.     O encorajamento de Deus
Deus aparece para Paulo em um ambiente de desespero, em meio a angustias e dores. É nesse contexto que o Senhor declara a Paulo: “CORAGEM!”  Eu não sei qual é a sua Jerusalém, nem o ambiente em que você possa estar sendo afligido, mas o Senhor te diz: CORAGEM!
A nossa vida não está nas mãos de homens perversos, mas daquele que governa os céus e a terra.  
O evangelho é a boa nova para a humanidade (“Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho” Fp 1.12).
Neste mundo onde reina violência, corrupção, desespero, confusão filosófica e multiplicidade de conceitos religiosos, o evangelho é a boa nova de Deus, do Seu amor e propósito eterno de salvar o pecador por meio de Jesus Cristo.
Não podemos considerar que nossos sofrimentos são fruto do acaso. Paulo não acreditava em casualidade, ele sabia que a mão soberana da providência guiava o seu destino e que seus sofrimentos estavam incluídos nos planos do Eterno para o cumprimento de propósitos mais elevados. Ele foi certamente perseguido, odiado, caluniado, açoitado, enclausurado, mas jamais viu seus adversários como agentes autônomos nessa empreitada. Ele sempre olhou para os acontecimentos na perspectiva da soberania e do propósito de Deus.
Também não podemos achar que nossos sofrimentos são expressão da fúria de Satanás. Embora Satanás tenha intentado contra ele, mas jamais Paulo considerou-o como o agente de seus sofrimentos. Quem estava no comando de sua agenda não era o inimigo, mas Deus. Quem determinava o rumo dos acontecimentos na agenda missionária da igreja era Deus. Ele via os acontecimentos como um plano sábio de Deus para o cumprimento de um propósito glorioso, qual seja o progresso do evangelho.  
Amados, o mesmo Deus que nos chama a fazer Sua vontade, caminha conosco em meio as dificuldades que se levantam. Ele enche o nosso peito de esperança e nossa alma de alento e paz, dizendo-nos: CORAGEM!
3.      O chamado de Deus
O Senhor aparece para Paulo dizendo: “Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma.” As vezes pensamos que as circunstancias e dificuldades estão no controle de nossas vidas, mas deixa eu te dizer algo aqui: Deus está no controle! Ele nunca nos abandona, Deus tem sempre um plano para nossas vidas, ainda que seja em meio a tempestade.
As nossas vidas está nas mãos do Senhor, e Ele sempre tem um novo horizonte para nós, um novo caminho a ser conquistado. Deus queria Paulo cumprindo o Seu chamado no coração do império Romano, com a mesma ousadia que ele falava em Jerusalém.
Qual é a Roma que o Senhor te tem chamado a testemunhar a Sua glória?
O Senhor te diz, pare de olhar para as suas dificuldades e problemas achando que é uma conspiração do diabo contra você ou uma manipulação da maldade humana para te destruir.
Comesse a olhar para estas situações na perspectiva da soberania de Deus, pois aquele que está no controle de sua vida te chama a fazer a Sua obra, de acordo com Seu soberano e sábio propósito.
Concluindo, Quando Paulo olhava por meio de suas algemas, ele aproveitava aquela oportunidade para prender aqueles que estavam a sua volta à verdade do evangelho. Ele não questionava seu sofrimento como se Deus houvesse esquecido dele ou como se seu sofrimento fosse obra de Satanás. Ele via cada circunstância como uma oportunidade para pregar ou defender o evangelho. Amados, este é nosso chamado, anunciar a Cristo em todo tempo, diante de qualquer circunstância, mesmo diante das mais terríveis adversidades, precisamos ser como Paulo: ter o coração ardente, os pés velozes e os lábios abertos para proclamar Cristo, a essência do evangelho.

Que o Senhor nos abençoe! 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Qual é o impacto de um milagre em sua vida?

“...o que temos feito com os resultados do milagre em nossas vidas? (João 6.12).
João destaca aqui, no milagre da multiplicação a ampla provisão de Deus (Jeremias 31.14 diz: “o Meu povo será saciado pela minha bondade.”). Mas, existe um detalhe aqui: Embora o Senhor tenha muito para suprir as nossas necessidades, Ele não deixara que nada seja desperdiçado. A Bíblia nos ensina sobre a alegria indizível e cheia de glória. Essa alegria é mais do que ver um pedido realizado, um sentimento que alimentamos ou fruto de circunstâncias favoráveis. Esta alegria não vem de nós mesmos e nem dos outros. É uma alegria que vem do alto, ela é gerada por Deus. É ação do Espírito Santo em nós (ela é o resultado da plenitude do Espírito Santo). 
1. Esta alegria tem origem divina
Não podemos produzir esta alegria na terra. Ela não é resultado de uma personalidade amável, de um temperamento dócil nem mesmo de circunstancias favoráveis. Nenhuma experiência vivida por nós, por mais intensa e arrebatadora, poderia ser classificada como uma alegria divina e cheia de gloria. Essa alegria tem uma origem celestial.
Deus é a fonte desta alegria. Só na presença d’Ele existe plenitude de alegria. Só na Sua presença é que vamos saciar nossa alma.
2. Esta alegria tem uma natureza sobrenatural
A Bíblia diz que a alegria faz parte do próprio conteúdo do evangelho, pois o evangelho é a boas novas de grande alegria. O reino de Deus que está dentro de nós é alegria no Espírito Santo. O fruto do Espírito é alegria e a ordem de Deus é alegrai-vos. Esta alegria que nasce em Deus e jorra para nossos corações, por intermédio do Espírito Santo, não é apenas um sentimento de bem estar nem apenas um momento de euforia que se esvai com o tempo. Não é como a alegria passageira que os aventureiros buscam em banquetes do pecado, pelo contrario, é uma alegria pura e santa, que asperge a alma com o balsamo da paz.
Deixa-me dizer algo aqui, esta alegria é um contentamento que domina nossa mente e coração mesmo em circunstancias sejam contrarias e desfavoráveis. É desta alegria que Pedro diz para os crentes da dispersão, que estavam sendo perseguidos pelo mundo e banidos e mortos.
3. Esta alegria tem um propósito glorioso
Quando desfrutamos da alegria de Deus, o próprio Deus é glorificado. O evangelho nos leva a viver e anunciar a gloria de Deus neste mundo tenebroso. Não há impacto mais poderoso no mundo do que um discípulo de Cristo que mesmo sendo torturado, cantar louvores na prisão. Não há argumento maior do que poder do evangelho na vida de um cristão afligido e ainda assim ter um brilho em sua face e cânticos de louvor em seus lábios. Não há evidencia maior acerca do poder de Deus quando um cristão, mesmo depois de enfrentar as perdas mais severas e ainda assim adorar a Deus.
Concluindo, o que temos feito com os resultados do milagre em nossas vidas? Do que temos enchidos os nossos cestos? Se o propósito do milagre é trazer a glória ao nome de Deus, seu resultado com certeza é transformar vidas aqui na terra. A alegria do povo de Deus é um testemunho tremendo acerca do poder transformador do evangelho em nossas vidas. Neste mundo que vivemos repletos de tantas más noticias, encharcado de tristeza, podemos experimentar a alegria celestial, que vem do céu. É um privilegio para os discípulos e uma evidencia da plenitude do Espírito Santo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A ética e a vida comunitária no Novo Testamento

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica.” (Filipenses 1.27).
Em o Novo Testamento, a vida comunitária traduz um aspecto sobremodo importante pra o andar cristão. Não há cristianismo onde o individualismo prevalece. Talvez por causa do capitalismo temos a ênfase da experiência pessoal mais enfatizada do que a experiência comunitária. O socialismo não é a resposta por causa de seu imanentismo e chave hermenêutica da luta de classes que promove mais o antagonismo social do que a verdadeira comunhão.

1.     Vivendo a cidadania do Reino
“Vivei” o verbo utilizado por Paulo aqui no original é: πολιτευεσθε / politeuesthe, que não tem o sentido geral de περιπατεω /peripateō  “andar”, assim um sentido politico “vivei como cidadãos” tratando-se de cristãos significa viver como cidadãos do Reino traduzindo assim o sentido pratico de vida comunitária. Assim podemos entender o reino de Deus como uma nova ordem politica, econômica e social, não simplesmente um sistema de doutrinas e credos isolados do contexto da vida.

         2.     Uma vida que transforma
Podemos compreender neste texto porque o Novo Testamento que visa a formação espiritual nunca se dirige a pessoas isoladas, mas sempre a comunidade, aos irmãos e sua vida conjunta. A conduta adequada que corresponde a espiritualidade do reino e a santificação, ocorrem no contexto da vida fraterna que o Novo Testamento preconiza. Esta é a vida que se transforma e produz transformação verdadeira e se torna um testemunho para a sociedade.

         3.     Nossa verdadeira luta
Como cristãos não estamos inseridos em contextos ideológicos humanistas, não obstante, não somos reféns de uma espiritualidade legalista (Conferir Cl 2.23), nem apegados a concepções fundamentalistas que distorcem a verdade. Preceitos humanos provenientes de literalismos doentios jamais captarão a plenitude da vida ativa em constante mutação. Também não podemos ser prisioneiros de aspectos exteriores onde o coração e a interioridade profunda da fé não se façam presente, talvez por isso, a exortação de Paulo: “...de modo digno do evangelho de Cristo. Vivei a vossa vida comunitária.” Onde os conceitos de unidade, diversidade, individualidade e coletividade se complementam numa dinâmica produzida pelo Espírito Santo: “Estai firmes, em um só espirito com uma só alma lutando juntos pela fé evangélica.”   


Concluindo, portanto, este aspecto de vida comunitária é muito significativo porque é na comunidade que o evangelho de Cristo é percebido em sua maneira digna de vivencia-lo, com transparência e fidelidade a Jesus Cristo, o Senhor. Nesses dias é de vital importância que recuperemos essa dimensão de vida do Novo Testamento porque somente assim Cristo será glorificado em Seus santos.  

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Enquanto os homens dormem...

“Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se. E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio? Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio? Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.” (Mateus 13.24-30).
Nesta parábola Jesus utiliza uma expressão interessante ao dizer que “enquanto os homens dormiam...” veio o inimigo e semeou o joio em meio ao trigo. Ele estava se referindo ao que acontece no reino de Deus ou como gostaria de compartilhar aqui, o que o inimigo tem semeado em meio às famílias. Enquanto como povo de Deus, sacerdotes do Senhor, parecem estar adormecidos ou indiferentes, o inimigo tem semeado em nossas casas, por vezes de maneira sutil, realidades preocupantes que podem ter consequências dolorosas num futuro não muito distante. A um ataque contra os princípios e visão cristã da família.
A edificação da família é ameaçada não apenas pela atitude interior do coração, mas também por influencias externas. Como discípulos de Cristo sempre nos deparamos com uma batalha de duas frentes. Uma é a luta contra nosso inimigo interior, que vem de dentro, do “eu” (a nossa carne) e a outra é uma guerra contra nosso inimigo exterior, o diabo, que nos aflige por fora. Nesta parábola Jesus nos descreve o perigo exterior, e nossa conduta diante deste ataque. Há uma pergunta feita pelos empregados que me chama a atenção:
· “De onde vem, pois, o joio?” Muitas vezes acontecem situações em nossas vidas que também nos perguntamos por que esta acontecendo isso?  Humanamente falando esses homens eram acostumados a lidar com a terra e deveriam saber que a erva daninha cresce por si próprio. Mas, se aqui há um caso incomum, o motivo é que em anos anteriores a terra, que fora limpa por estes homens, não apresentava uma quantidade tão grande de joio (“Trigo do diabo”) como desta vez. Certamente a correria do dia-a-dia, os muitos afazeres nos leva a descuidar ou não estar atento às ervas daninhas que o inimigo vai semeando em nossas vidas. Ficamos insensíveis, descuidamos em nosso devocional.
· “Um inimigo fez isso...”  Outro ponto que precisamos estar atentos é como o dono da terra sabia com tanta certeza que enquanto todos dormiam o inimigo semeou o joio? A Bíblia esta sempre nos alertando que nosso inimigo vem como um ladrão. Sorrateiramente. No momento do cansaço, depois de um dia de trabalho exaustivo, quando abaixamos a guarda, relaxamos... Pedro nos advertiu que nosso adversário é como um leão que nos rodeia procurando uma forma de nos destruir.  
· “Queres que vamos e arranquemos o joio?” a resposta parece ser meio obvio, mas a algo profundo aqui, o trigo possui raízes mais frágeis que o joio. Ao arrancar o joio, também arrancaria o trigo. Muitas vezes a semente lançada por satanás em nossas vidas nos deixam indiferentes, frios, insensíveis e acabamos deixando nosso coração endurecido e na explicação da parábola Jesus adverte os discípulos para o perigo da colheita e porque deveriam esperar (Mt 13.36-43). O sentido da separação é julgar, condenar e punir. Não cabe a nós isto é obra do Senhor, no dia do juízo. 
     A questão da separação aqui é importante pois o Senhor nos deixou viver em meio ao joio para sermos luz! Nossa vida e conduta reflete a glória de Deus, essa separação será feita pelos anjos do Senhor (vs. 39-41), a separação prematura na época atual se torna mais destrutiva do que purificadora.  
     Concluindo, Mateus usa aqui a frase: Seu campo. Gostaria de dizer a você que há uma promessa de Deus para sua casa, uma promessa de colheita. O campo pode ou não parecer fértil! Pode ser semeado joio entre as sementes que você tem semeado, ou seu campo pode ser devastado pela seca (necessidade espiritual), mas em meio a todo o caos Deus nos promete uma colheita farta! Amem! Repleta de frutos, sua vida a vida de sua esposa e filhos é um campo fértil nas mãos do Pai!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Oração que alcança Deus

Por J. C. Ryle
Quero me dirigir àquelas pessoas que oram. Creio que alguns leitores deste artigo já têm o Espírito de adoção e sabem bem o que significa a oração. Para tais pessoas, ofereço apenas algumas palavras de conselho e exortação fraternal. Deus ordenou que o incenso oferecido no tabernáculo fosse preparado de maneira muito específica. Não poderia ser qualquer tipo de incenso. Lembremo-nos disso e sejamos cuidadosos com a nossa maneira de orar. Em primeiro lugar, então, chamo a sua atenção para a importância da reverência e da humildade na oração. Nunca nos esqueçamos daquilo que realmente somos e de como é sério falar com Deus. Tenhamos cuidado para não entrar correndo na sua presença de forma irrefletida e leviana. Digamos antes para nós mesmos: “Estou em terra santa. Aqui não é outro lugar senão a própria porta do céu. Se eu não estiver falando com sinceridade, estarei brincando com Deus. Se eu contemplar iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá” (Êx 3.5; Gn 28.17; Sl 66.18).
Observemos as palavras de Salomão: “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra” (Ec 5.2). Quando Abraão se dirigiu a Deus, ele disse: “sou pó e cinza”(Gn 18.27). De maneira semelhante, Jó disse: “Sou indigno [ou vil]” (Jó 40.4). Tenhamos a mesma atitude.
Chamo a sua atenção, em seguida, para a importância de orar espiritualmente. Com isso, quero dizer que devemos buscar sempre a ajuda do Espírito nas nossas orações e vigiar, sobretudo, contra a formalidade. Não há nada tão espiritual que não possa transformar-se numa fórmula mecânica, especialmente em se tratando de oração individual. É muito fácil formar o hábito inconsciente de usar as palavras mais adequadas possíveis e oferecer petições totalmente bíblicas e, ao mesmo tempo, fazer de tudo isso uma mera rotina sem qualquer sentimento interior, repetindo diariamente os mesmos passos no mesmo caminho batido. Quero tocar neste ponto com cautela e delicadeza. Sei que há certas necessidades que aparecem na nossa vida diariamente; não significa necessariamente que estou sendo formal porque peço as mesmas coisas com as mesmas palavras. O mundo, o diabo e o nosso coração são iguais todos os dias. É necessário pisar diariamente no mesmo terreno. Contudo, quero reafirmar que devemos ser muito cuidadosos neste ponto. Se o esqueleto e o esboço das orações precisam ser repetidos a ponto de se tornarem praticamente uma fórmula, esforcemo-nos para que a roupagem e o conteúdo delas sejam sempre gerados pelo Espírito, no máximo possível. Considere, também, a importância de fazer da oração uma atividade regular da vida.Cabe aqui dizer algo sobre o valor de ter horários fixos no dia reservados para a oração. Deus é um Deus de ordem. O fato de ter uma hora certa para o sacrifício da manhã e o da tarde, no templo dos judeus, não era um detalhe insignificante. A desordem é um dos frutos mais notórios do pecado. Ao mesmo tempo, não estou sugerindo nenhum tipo de obrigação opressiva. Só quero afirmar isto: é essencial para a saúde do homem interior incluir a oração como parte imprescindível de sua atividade em cada ciclo de vinte e quatro horas da sua vida.
Assim como você reserva um horário para comer, para dormir e para trabalhar, separe igualmente um tempo para a oração. Escolha seu próprio horário no dia a dia e faça-o, também, em ocasiões especiais. Fale com Deus, ao menos no primeiro instante do dia, de manhã, antes de falar com o mundo; e fale com ele à noite, depois de encerrar seu contato com o mundo. Determine em sua mente que a oração é uma das atividades mais importantes do seu dia a dia. Não a relegue para um lugar secundário. Não lhe dê as sobras do seu tempo nem as pontas das outras obrigações. Sejam quais forem as demais atividades prioritárias de sua vida, coloque a oração como uma delas.
Considere agora a importância da perseverança na oração. Uma vez iniciado o hábito, nunca desista dele. O seu coração poderá lhe dizer algumas vezes: “Você já orou com a família; que grande mal haveria em deixar de fazer sua oração pessoal?”. Outras vezes, seu corpo poderá reclamar: “Você não está sentindo bem, está com sono, cansado; não precisa orar”. A sua mente tentará argumentar: “Você tem negócios importantes para tratar hoje; encurte as orações”. Encare todas essas sugestões como procedentes diretamente de Satanás. Elas estão passando, com efeito, esta mensagem: “Negligencie a sua alma”. Não estou defendendo que as orações devam ter sempre a mesma duração; quero encorajá-lo apenas a nunca permitir que desculpa alguma o faça desistir de orar. Paulo disse: “Perseverai na oração” e “Orai sem cessar” (Cl 4.2; 1 Ts 5.17). Ele não estava dizendo que todos deveriam estar o tempo inteiro de joelhos, mas exortava os discípulos para que suas orações fossem como os holocaustos contínuos, mantidos regularmente todos os dias; que fossem tão constantes quanto o tempo de semeadura e de colheita, de inverno e verão, despontando infalivelmente em ocasiões regulares; que se tornassem como o fogo do altar, o qual, mesmo quando não consumia sacrifícios, nunca se apagava completamente. Mantenha sempre em mente que você pode formar uma corrente ininterrupta, ligando as orações matutinas com as da noite, por meio de pequenas orações e súplicas oferecidas ao longo do dia. No lugar em que estiver, seja no trabalho, seja com outras pessoas ou até mesmo na rua, você pode disparar silenciosamente pequenas mensagens a Deus, como flechas voadoras, assim como fez Neemias quando estava diante do próprio rei Artaxerxes (Ne 2.4).
Pense agora na importância da intensidade na oração. Não é uma questão de gritar, berrar ou falar muito alto a fim de provar que sua oração realmente é intensa. Significa que devemos ter entusiasmo, fervor e paixão, que nossas súplicas devem ser feitas com uma demonstração clara de que estamos envolvidos de coração naquilo que estamos pedindo. É a oração “fervorosa e enérgica” que “muito pode por sua eficácia” (Tg 5.16).
É essa lição que nos é ensinada pelas expressões usadas nas Escrituras para descrever a oração. Orar é “clamar, bater na porta, afadigar-se, empenhar-se, labutar, lutar, guerrear”. É também a lição que aprendemos com os personagens da Bíblia. Jacó foi um deles. Ele disse para o anjo em Peniel: “Não te deixarei ir se me não abençoares” (Gn 32.26). Daniel foi outro. Ouça como ele suplicou diante de Deus: “Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e age; não te retardes, pelo amor de ti mesmo, ó Deus meu” (Dn 9.19). Nosso Senhor Jesus Cristo demonstrou isso também. Está escrito a respeito dele: “Nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas…” (Hb 5.7).
Lamentavelmente, a maioria das nossas súplicas não possui quase nada dessa intensidade! Como parecem inofensivas e mornas em comparação! De fato, Deus poderia perfeitamente dizer a muitos: “Vocês não querem de verdade aquilo que estão pedindo”.
Vamos nos empenhar para corrigir esse erro. Vamos bater com força na porta da graça, assim como fez a Misericórdia naquele clássico, O Peregrino, como se fôssemos perecer caso não fôssemos ouvidos. Deixemos esta verdade bem firme em nossas mentes: orações frias são o mesmo que um sacrifício sem fogo. Chegamos agora à importância de se orar com fé. Devemos nos empenhar para crer que nossas orações serão ouvidas e que certamente teremos resposta se estivermos pedindo de acordo com a vontade de Deus. Esta é a ordem explícita de nosso Senhor Jesus Cristo: “Tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.24). A fé está para a oração assim como a pena está para a flecha – sem ela, a oração não acerta o alvo. Em nossas orações, devemos cultivar o hábito de suplicar com base nas promessas de Deus. Podemos tomar algumas promessas e dizer: “Senhor, aqui está o teu compromisso com a tua Palavra. Faze por nós assim como prometeste”. Esse era o hábito de Jacó, de Moisés e de Davi. O Salmo 119 está cheio de petições, feitas “segundo a tua palavra”.
Acima de tudo, devemos cultivar o hábito de esperar respostas às nossas orações. Precisamos ter a atitude de um comerciante que envia seus navios ao mar. Não devemos ficar satisfeitos, a menos que tenhamos algum retorno. Lamentavelmente, há poucos aspectos em que os cristãos falham mais do que neste. Há uma expressão solene de Robert Traill: “Não há maior marca de menosprezo pela oração do que quando as pessoas são indiferentes em relação àquilo que pedem na oração”.
Peço que considere também a importância da ousadia na oração. Há uma familiaridade imprópria nas orações de algumas pessoas que não posso elogiar. Por outro lado, existe uma ousadia santa, que é algo extremamente desejável. Uma ousadia tal qual aquela de Moisés, quando suplicou a Deus para que não destruísse Israel. “Por que”, disse ele, “hão de dizer os egípcios: Com maus intentos os tirou, para matá-los nos montes… Torna-te do furor da tua ira” (Ex 32.12). Refiro-me também à ousadia de Josué, quando os filhos de Israel foram derrotados diante dos homens de Ai: “Então”, disse ele, “que farás ao teu grande nome?” (Js 7.9).
Foi essa ousadia que marcou a vida de Lutero. Uma pessoa que o ouviu enquanto orava disse: “Que espírito, que confiança transparecia até nas expressões do rosto! Seus pedidos eram feitos com reverência e humildade, como faria um suplicante; ao mesmo tempo, falava com esperança e segurança como quem pede a um pai amoroso ou a um amigo”. Foi essa ousadia, também, que caracterizou Bruce, um clérigo escocês do século 17. Diziam que suas orações eram “como dardos disparados para o céu”.
Temo que aqui também falhamos lamentavelmente. Não compreendemos suficientemente os privilégios do crente. Não suplicamos com tanta frequência quanto poderíamos: “Senhor, não somos teu povo? Não é para tua glória que devemos nos santificar? Não é para tua honra que teu Evangelho deve crescer?” Voltemos nossa atenção, agora, para a importância da plenitude na oração. Não ignoro o fato de que nosso Senhor advertiu os discípulos contra o exemplo dos fariseus, os quais, por pretensão, faziam longas orações. “Orando”, ele instruiu, “não useis de vãs repetições” (Mt 6.7). Por outro lado, também não posso esquecer que ele deixou um claro endosso a longas e intensas devoções quando permanecia a noite toda em oração a Deus. Em todo caso, é pouco provável nos dias de hoje que erremos no extremo de orar demais. Não deveríamos, na nossa geração, ter muito mais receio de estar orando de menos? A quantidade de tempo que os cristãos realmente separam para oração, individualmente ou em conjunto, não é muito pequena?
Tenho receio de que essas perguntas não possam ser respondidas satisfatoriamente. Temo que as devoções particulares da maioria sejam lamentavelmente escassas e limitadas; só o suficiente para provar que estão vivos, mas nada além disso. Parecem querer muito pouco de Deus. Aparentemente, têm pouco para confessar, pouco para pedir e pouco para agradecer. Que situação lamentável!
É muito comum ouvir os crentes se queixando que não conseguem avançar na vida espiritual. Dizem que não crescem na graça como desejariam. Porém, não poderíamos suspeitar de que possuem exatamente o tanto de graça que pediram do Senhor? O fato verdadeiro não seria que têm pouco porque pediram pouco? A causa de sua fraqueza pode ser encontrada em suas próprias orações que são mirradas, mesquinhas, reduzidas, superficiais, apressadas, abreviadas, acanhadas e vazias. Nada têm porque não pedem (Tg 4.2). A triste realidade é esta: não somos limitados por causa de Cristo, pois os limites estão em nós mesmos (2 Co 6.12,13). O Senhor diz: “Abre bem a boca, e ta encherei” (Sl 81.10). Somos como o rei de Israel que feriu a terra três vezes e parou, quando a deveria ter ferido cinco ou seis vezes (2 Rs 13.14-19).
Veja agora a importância de ser específico na oração. Não devemos nos contentar em fazer petições gerais. Devemos detalhar nossas necessidades diante do trono da graça. Não é suficiente confessar que somos pecadores; precisamos dar nomes aos pecados dos quais nossa consciência nos faz sentir culpados. Não devemos nos dar por satisfeitos quando rogamos ao Senhor por santidade em geral; precisamos mencionar as graças e qualidades das quais nos sentimos mais deficientes. Não é correto apenas contar ao Senhor que estamos em dificuldades; precisamos descrever a nossa situação em todas as suas peculiaridades. Foi isso que Jacó fez quando teve medo de seu irmão Esaú. Ele contou para Deus exatamente o que temia (Gn 32.11). Foi isso o que o servo de Abraão fez quando foi procurar uma esposa para o filho do seu senhor. Ele expôs diante de Deus exatamente aquilo de que precisava (Gn 24.12). Foi isso, também, o que Paulo fez quando tinha um espinho na carne. Rogou ao Senhor que o afastasse dele (2 Co 12.8). É essa atitude que demonstra fé e confiança verdadeiras. Devemos acreditar que nada é tão pequeno ou tão insignificante que não possa ser mencionado diante de Deus. O que você acharia de um paciente que fosse ao médico dizer que estava doente, mas não quisesse contar detalhe algum de sua enfermidade? O que você pensaria da esposa que dissesse ao marido que estava infeliz, mas não especificasse a causa? Ou que diríamos do filho que reclamasse ao pai que estava em dificuldades, mas nada além disso? Cristo é o nosso verdadeiro Noivo, o Médico do coração, o Pai perfeito e amoroso de cada um de nós. Vamos demonstrar correspondência sendo totalmente abertos na nossa comunicação com ele. Não esconda dele segredo algum. Conte-lhe tudo o que está no seu coração.
Considere, agora, a importância da intercessão nas nossas orações. Somos egoístas por natureza, e o nosso egoísmo continua se manifestando em nós, mesmo depois da conversão. Há uma tendência para pensar somente na própria vida, nos próprios conflitos espirituais, no próprio progresso, e de esquecer-se dos outros. Contra essa tendência, todos nós precisamos vigiar e lutar, inclusive nas orações. Devemos nos empenhar para despertar interesse no nosso coração pelo bem comum. Precisamos desenvolver o hábito de mencionar outros nomes, além do nosso, diante do trono da graça. Procuremos carregar sobre o coração e os ombros o encargo espiritual de todo o mundo, dos pagãos, de judeus, católicos e evangélicos, de toda a Igreja de Jesus, do país onde vivemos, da congregação à qual pertencemos, da casa onde moramos, dos amigos e parentes com quem temos vínculos. Por cada um e por todos, devemos suplicar. Essa é a maior caridade que se possa dar a alguém! Os que me amam orando por mim é que me amam melhor. Orar em favor dos outros traz saúde para a própria alma. Aumenta nossa compaixão e alarga o coração. Traz benefício para toda a igreja.
As engrenagens de todos os ministérios e funções que fazem o Evangelho avançar são movidas por meio da oração. Aqueles que intercedem como Moisés no monte são tão eficazes pela causa do Senhor quanto os que lutam como Josué no calor e no perigo da batalha. Isso é ser semelhante a Cristo. Ele apresenta diante do Senhor os nomes de suas ovelhas, como o Sumo Sacerdote. Que tremendo privilégio é assumir funções semelhantes às de Jesus! É assim que podemos, de fato, apoiar outros ministros do Senhor. Se eu pudesse escolher uma congregação, escolheria um povo que orasse.
Um aspecto que não pode ser esquecido é a importância da gratidão na oração. Sei muito bem que pedir a Deus é uma coisa e louvá-lo é outra. Mas vejo na Bíblia uma conexão tão próxima entre oração e louvor que não teria coragem de dizer que uma oração é verdadeira se não inclui a gratidão. Não foi sem motivo que Paulo disse: “Sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça” (Fp 4.6, ênfase acrescentada). “Perseverai na oração, vigiando com ações de graça” (Cl 4.2).
É pela misericórdia divina que não estamos no inferno. É pela misericórdia que temos a esperança do céu. É pela misericórdia que temos acesso à luz de Deus. É pela misericórdia que fomos chamados pelo Espírito e não abandonados para colher o fruto dos nossos próprios caminhos. É pela misericórdia que ainda vivemos e temos oportunidades de glorificar a Deus, tanto passiva quanto ativamente. Com certeza, esse tipo de pensamento deve encher nossa mente sempre que falamos com Deus. Nunca deveríamos abrir nossos lábios em oração sem glorificar a Deus pela graça que nos dá a vida, e pela misericórdia e bondade do Senhor que duram para sempre. Nunca houve um grande servo ou serva de Deus que não transbordasse de gratidão. Quase todas as epístolas de Paulo começam com ações de graça. Querido leitor, se quisermos ser luzeiros resplandecentes a brilhar nas trevas da nossa geração, precisaremos cultivar um espírito de louvor. Que nossas orações sejam repletas de gratidão.
Finalmente, peço que considere a importância da vigilância constante sobre sua vida de oração. A oração é o aspecto da vida espiritual, acima de todos os outros, que requer atenção especial. É aqui que começa a religião verdadeira; aqui ela floresce e aqui ela decai. Conte-me como são as orações de alguém, e logo eu lhe direi o estado de sua alma. A oração é o pulso da vida espiritual. Por ela, a saúde espiritual pode ser aferida. A oração é o barômetro espiritual. Por ela, podemos saber se as condições no coração são de tempo bom ou tempo ruim. Que atenção especial precisa ser dada ao seu tempo individual com o Senhor! Aqui está o coração da nossa vida cristã na prática. Sermões, livros, folhetos, reuniões de diretorias e a companhia de pessoas de bem são elementos importantes, cada um com sua função; entretanto, nenhum deles conseguirá compensar a negligência da oração individual.
Marque muito bem os lugares, as companhias e os ambientes que prejudicam e impedem seu coração de ter comunhão com Deus e fazem com que suas orações se tornem pesadas, sem espontaneidade. Coloque uma vigilância dobrada nestes pontos de sua vida. Observe cuidadosamente que amigos e atividades o deixam mais afinado espiritualmente, mais disposto a falar com Deus. A essas pessoas e a essas atividades você deve se ligar e permanecer firme. Se você cuidar bem de sua vida de oração, as demais áreas da vida dificilmente se desencaminharão.
Ofereço estes pontos para sua consideração pessoal. Faço-o com toda a humildade. Não há ninguém que precise ser mais lembrado deles do que eu mesmo. Mas creio que representam a própria verdade de Deus, e meu anseio é para que eu mesmo e todos aqueles que eu amo os coloquem em prática com intensidade cada vez maior.